11046
Visualizações
Acesso aberto Revisado por pares
Artigo Original

Perfil alimentar de pacientes internados por queimaduras em hospital público especializado

Food profile of a specialized public hospital for patients injured by burns

Jaqueline Pereira Silva1; Patrícia Colombo-Souza2

RESUMO

OBJETIVOS: Descrever e analisar o perfil alimentar de pacientes internados por diferentes graus de queimaduras em hospital público especializado.
MÉTODO: Estudo descritivo, exploratório e longitudinal, com amostra de 30 pacientes internados em hospital de referência em Sao Paulo no período de abril a setembro de 2016, com idade superior a 18 anos e utilizando dieta via oral. As variáveis estudadas foram: idade, gênero, percentual de área queimada, agente causador e tipo da queimadura, tempo de internaçao, Indice de Massa Corporal (IMC), consumo alimentar calórico/proteico, bem como a diferença entre a necessidade e a ingesta, além da análise qualitativa dos grupos alimentares. Utilizou-se estatística descritiva para os dados quantitativos e inferencial, Teste de Mann-Whitney e Qui-Quadrado, para comparaçao dos grupos de queimaduras (isolada vs. mistas), com nível de significância de 95%.
RESULTADOS: Houve predominância do gênero masculino (80%), idade média de 39,1 anos, com 60% apresentando queimaduras isoladas e 40% mistas. Observou-se homogeneidade quanto às seguintes variáveis: gênero, idade, IMC e tempo de internaçao. Comparando-se as médias dos valores das necessidades do paciente menos a quantidade ofertada de calorias (p=0,432) e proteínas (p=0,432), observou-se conduta semelhante entre os grupos e a manutençao da oferta calórica e proteica durante o período de internaçao. O consumo qualitativo inadequado foi prevalente no grupo de queimaduras isoladas em relaçao às mistas (p=0,794)
CONCLUSAO: Verificou-se adequaçao do perfil alimentar dos pacientes, demonstrando cuidado em atingir o aporte proteico e calórico com o intuito de suprir as demandas aumentadas.

Palavras-chave: DESCRITORES: Queimaduras. Consumo de Alimentos. Nutrientes. Pacientes Internados.

ABSTRACT

OBJECTIVE: To describe and analyze the food profile of patients hospitalized for different degrees of burn in a specialized public hospital.
METHODS: Descriptive, exploratory and longitudinal study with a sample of 30 patients hospitalized in a referral hospital in Sao Paulo from April to September 2016, aged over 18 years using oral diet. The studied variables were: age, gender, percentage of burned area, causative agent and type of burn, time of stay, Body Mass Index (BMI), caloric and protein intake, as well as the difference between need and intake in addition to the qualitative analysis of food groups. Descriptive statistics were used for the quantitative and inferential data, using the Mann-Whitney and Chi-squared test to compare the groups of burns (isolated vs. mixed) with a level of significance of 95%.
RESULTS: There was predominance of male gender (80%), mean age of 39.1 years, whereas 60% of them presented isolated burns and 40% presented mixed burns. The following variables were homogeneous: gender, age, BMI and time of stay. Comparing the mean values of Patients needs less the quantity of calories supplied (p=0.432) and proteins (p=0.432), similar procedure was observed between the groups and maintenance of the caloric and protein supply during time of stay. Inadequate qualitative consumption was prevalent in the group of isolated burns in relation to the mixed burns (p=0.794).
CONCLUSION: There was adequacy of Patients dietary profile, demonstrating care in reaching the protein and caloric intake in order to meet the increased demands.

Keywords: Burns. Food Consumption. Nutrients. Inpatients.

INTRODUÇAO

As queimaduras sao resultados das açoes diretas ou indiretas de calor em excesso sobre o tecido cutâneo à exposiçao de substâncias corrosivas, radiaçao, contato com correntes elétricas ou o frio intenso, podendo acarretar danos aos tecidos, gerando queimaduras1. Sao consideradas problema de saúde pública, pois além de causarem elevado número de mortes, têm como consequências danos físicos e psicossociais que marcam as vidas de pacientes e familiares, deixando cicatrizes, sequelas e um longo período de internaçao2.

É comum observar em pacientes queimados alteraçoes fisiopatológicas, incluindo perda nitrogenada, deficiência imunológica, desnutriçao, predisposiçao a infecçoes frequentes, deficiência em processos cicatriciais, aumento do tempo de hospitalizaçao e mortalidade. Após a lesao, ocorre a fase em que se inicia a resposta metabólica ao trauma, denominada como ebb phase, fase de refluxo que ocorre nas primeiras horas após o trauma, caracterizada pelo menor consumo de oxigênio total (VO2) e diminuída velocidade do metabolismo, sendo esta fase substituída pela fase de fluxo (flow phase), com consumo elevado de VO2, gasto energético de repouso elevado, fluxo de substratos aumentados, perda acelerada de nitrogênio e potássio3,4. As manifestaçoes metabólicas estao intimamente relacionadas com a gravidade da lesao, sendo que as lesoes mais graves tendem a manifestar maior grau de hipermetabolismo, desencadeando valores basais que podem chegar a 200%5.

O hipermetabolismo estimula o aumento das necessidades proteico-calóricas e o início da nutriçao precoce deve ser priorizado assim que o paciente se estabilizar hemodinamicamente. O suporte nutricional adequado atenua a sepse, diminui o risco de complicaçoes em pacientes graves, minimiza a resposta metabólica ao trauma e suas consequências (tais como a perda de peso, a reduçao dos mecanismos de defesa e a diminuiçao do processo de cicatrizaçao)6,7.

Acredita-se que as necessidades nutricionais possam estar aumentadas, sendo necessários ajustes quanto à alimentaçao ofertada, as necessidades nutricionais, preferências e aceitaçao alimentar7. Diante do exposto, este trabalho tem como objetivo descrever e analisar o perfil alimentar de pacientes internados por diferentes graus de queimaduras em hospital público especializado.


MÉTODO

Foi realizado um estudo descritivo, exploratório e longitudinal da internaçao à alta hospitalar relacionado ao perfil alimentar de pacientes queimados.

Participaram desta pesquisa pacientes internados no Hospital Municipal Dr. Carmino Caricchio, localizado no município de Sao Paulo, SP, no período de abril a setembro de 2016, que realizavam tratamento no centro de queimados, com idade maior que 18 anos, dos gêneros masculino e feminino, em uso de dieta via oral, que nao apresentavam comorbidades associadas que pudessem interferir no processo de cicatrizaçao.

Foram incluídos todos os pacientes que se encontravam em condiçoes clínicas favoráveis à participaçao do estudo e que consentiram participar, assinando o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Foram excluídos do estudo gestantes, pacientes com queimaduras de 1° grau isoladas, os que nao se enquadraram no perfil determinado e os que nao aceitaram participar do estudo.

Os pacientes foram convidados a participar da pesquisa no momento da realizaçao de sua primeira avaliaçao pela equipe da nutriçao. A coleta dos dados ocorreu à beira leito e também por meio de dados de prontuário.

Os pacientes foram acompanhados até o momento da alta hospitalar e a coleta de dados foi realizada semanalmente ou conforme as avaliaçoes eram realizadas pela equipe de nutriçao. A coleta de dados foi realizada a partir de ficha pré-estabelecida pelas pesquisadoras contendo as seguintes variáveis: gênero, idade, agente causador, grau de queimadura, Superfície Corporal Queimada (SCQ), Indice de Massa Corporal (IMC), porcentagem de aceitaçao da dieta, consumo calórico/ proteico, necessidades nutricionais e preferências alimentares.

A pesquisa foi submetida aos Comitês de Ética em Pesquisa da Universidade Santo Amaro (CAAE 53484715.7.0000.008, parecer 1.456.185) e do Hospital Municipal Dr. Carmino Caricchio (CAAE 53484715.7.3001.0073, parecer: 1.471.321), obtendo parecer favorável em ambos os Comitês. Foi realizada a leitura do TCLE para cada colaborador da pesquisa, expondo os objetivos, descriçao dos procedimentos para a coleta de dados, sua isençao em despesas e compensaçoes, garantia de acesso às informaçoes do estudo, garantia de liberdade de nao participaçao do estudo ou retirada de consentimento a qualquer momento sem qualquer prejuízo com direito de confidencialidade e esclarecimentos permanentes.

Para a avaliaçao dietética, foi observado o tipo de dieta prescrita, realizado o cálculo de calorias e proteínas e a porcentagem de aceitaçao e adequaçao de acordo com as necessidades energéticas e proteicas calculadas e as fornecidas. Para o cálculo das necessidades energéticas, foi utilizada fórmula adaptada pelo serviço [(27 x peso) + (27 x peso) x Fator Injúria (FI%)* (* Fator Injúria SCQ% 10 = FI 10-20% / SCQ% 10-20 = FI 20-30% / SCQ% 20-30 = FI 30-40% / SCQ% >30 = FI 50%) e para necessidade proteica fórmula de Pennisi8: (1g x peso) + (3g x % SCQ).

Os cálculos utilizados para quantificar a quantidade de calorias e proteínas que estavam sendo ofertadas e consumidas foram efetuados da seguinte forma: Necessidade energética do paciente (Kcal) menos a quantidade ofertada (Kcal); Necessidade Proteica do paciente (g) menos a quantidade de Proteína ofertada (g); Quantidade de calorias consumida (Kcal) menos a Necessidade Energética do paciente (Kcal) e a Quantidade de Proteína consumida pelo paciente (g) menos a Necessidade Proteica do paciente (g).

O acompanhamento dos pacientes quanto às necessidades nutricionais, o consumo e a oferta proporcionada aos pacientes no período de internaçao foram comparadas segundo as quatro fórmulas descritas acima, individualmente por semana, totalizando 4 semanas de acompanhamento.

O consumo alimentar baseado nos grupos alimentares (carboidratos, leguminosas, proteínas, hortaliças, frutas, açúcares e água) foi analisado qualitativamente levando-se em consideraçao a pirâmide alimentar brasileira e o número de porçoes consumidas ao dia. Foram considerados inadequados os grupos que nao atingiam a recomendaçao diária para cada grupo alimentar9.

Para efeito da análise dos resultados, os pacientes foram divididos em dois grupos: queimaduras mistas (2º e 3º grau) e/ou isolada (3º grau) e utilizados os testes do Qui-Quadrado e Exato de Fisher para avaliar as possíveis associaçoes entre os diferentes graus de queimadura e as variáveis estudadas e Teste de Mann-Whitney para estudar diferenças entre os diferentes graus de queimaduras e as variáveis estudadas. Fixou-se em 0,05 ou 5% o nível de significância utilizando-se testes monocaudais.


RESULTADOS

Dos 30 pacientes estudados, 80% eram do gênero masculino e 20% do feminino. A idade variou de 20 a 87 anos (média 39,1 anos), nao havendo variaçoes entre os dois grupos de queimaduras estudadas (p=0,255).

Quanto ao grau das queimaduras, verificou-se que 60% possuíam queimaduras isoladas (3º grau) e que 40% apresentavam queimaduras mistas (2º e 3º graus), sendo a porcentagem de SCQ em média de 7,45% nas queimaduras mistas e 12,40% nas queimaduras isoladas, nao havendo diferença estatisticamente significante entre os grupos (p=0,122).

O agente térmico fogo, traumas elétricos e água aquecida representaram a maioria dos casos das queimaduras (Tabela 1), sendo que a distribuiçao dos agentes causadores, entre os dois grupos estudados, foi semelhante (p=0,707).




O tempo de permanência dos pacientes internados com queimaduras mistas foi 23 dias e os com queimaduras isoladas 26 dias, nao apresentando diferença estatística significante (p=0,290).

A média do IMC dos pacientes com queimaduras mistas na avaliaçao inicial foi de 25,4 kg/m2 e na avaliaçao final foi de 25,6 kg/ m2 (p=0,373). Nos pacientes com queimaduras isoladas a média do IMC inicial foi de 24,5 kg/m2 e a final de 24,2 kg/m2 (p=0,151), sendo que estas diferenças nao foram estatisticamente significantes.

Foram prescritas durante o período de internaçao para os 30 pacientes estudados e divididos entre os dois grupos: 14 dietas gerais/ hipercalóricas/hiperproteicas; 10 dietas gerais, quatro dietas gerais com resíduo, uma dieta pastosa e uma dieta pastosa hipercalórica e hiperproteica. De acordo com a análise estatística, os grupos se mantiveram homogêneos, nao sendo identificada conduta diferenciada entre os grupos quanto à dietoterapia instaurada (p=0,731). Em média as dietas forneciam 3100 kcal e 150 g de proteínas.

A necessidade energética dos pacientes com queimaduras mistas foi de 2114 kcal/ dia e do grupo das isoladas 2163 kcal/dia. De acordo com o teste de Mann-Whitney, nao houve diferença estatística significante entre os grupos (p=0,466). Ao analisarmos a necessidade proteica, constatou-se que a média da necessidade foi de 92,9 g/ dia para os pacientes com queimaduras mistas e de 107,6 g/dia para os pacientes com queimaduras isoladas, nao sendo esta diferença estatisticamente significante (p=0145).

A porcentagem de aceitaçao da dieta ofertada passou por análise (p=0,145) e detectou-se aceitaçao em média de 81,2% no grupo misto e 88,1% no grupo isolado, o que infere boa aceitaçao em ambos os grupos (Gráfico 1).


Gráfico 1 - Aceitaçao da dieta ofertada aos pacientes segundo grau de queimaduras. Hospital Municipal Dr. Carmino Caricchio, Sao Paulo, 2016.



A oferta e o consumo energético e proteico foram analisados (Tabela 2), sendo levada em consideraçao a média das necessidades calculadas menos a ofertada e a quantidade consumida menos a necessidade dos pacientes. Em nenhuma das avaliaçoes realizadas foi observada diferença estatística.




Diante das comparaçoes realizadas durante as semanas de acompanhamento, observou-se que a média em relaçao à necessidade energética e a ofertada aos pacientes nao apresentou diferenças significantes durante as 4 semanas de acompanhamento, ou seja, os pacientes que permaneceram por 1, 2, 3 ou 4 semanas receberam em média quantidades a mais de calorias e proteínas, demonstrando que o aporte ofertado permaneceu acima das recomendaçoes durante todo o período de internaçao (Gráfico 2).


Gráfico 2 - Diferença entre a quantidade de calorias (Kcal) e proteína (g) consumidas e as necessidades dos pacientes, segundo as quatro semanas de acompanhamento. Hospital Municipal Dr. Carmino Caricchio, Sao Paulo, 2016.



Quanto à avaliaçao da dieta durante o período de internaçao/ acompanhamento, na comparaçao realizada entre a primeira e a segunda semana houve alta de oito pacientes (n=22), quando se compara a primeira semana com a segunda e a terceira semana, na qual houve alta de mais 10 pacientes (n=12) e na última semana de avaliaçao, completando 4 semanas de acompanhamento, sete pacientes foram contemplados com a alta hospitalar, totalizando o acompanhamento de (n=5) pacientes ao final do estudo.

Os grupos estudados nao apresentaram diferenças estatísticas significantes quando avaliada a presença de consumo inadequado, sendo possível observar que o grupo com queimaduras isoladas apresentou maior rejeiçao a alguns grupos de alimentos (Gráfico 3) quando comparado ao grupo com queimaduras mistas (p=0,7946). No geral observou-se um baixo consumo de legumes e hortaliças e consumo excessivo de açúcares.


Gráfico 3 - Consumo inadequado dos grupos alimentares pelos pacientes. Hospital Municipal Dr. Carmino Caricchio, Sao Paulo, 2016.



O consumo de proteínas de origem animal foi o grupo alimentar ingerido pela maioria dos entrevistados; os legumes e verduras apresentaram regular ingestao por grande parte dos indivíduos entrevistados 30% (n=9); já quanto às frutas, notou-se que apenas 10% (n=3) nao as consumiam. Os doces e sobremesas, ricos em carboidratos simples, apresentaram prevalências de consumo por 29 dos 30 pacientes. Os entrevistados referiram preferência por líquidos bem adoçados e sobremesa (pudins com caldas e bolos com cobertura). Observou-se, também, que 53% (n=16) consumiam menos de 2 litros de água por dia, sendo esta baixa ingestao menos observada nos pacientes com queimaduras isoladas (Gráfico 3).


DISCUSSAO

Vários estudos apontam o gênero masculino como o mais frequentemente atingido por queimaduras, sendo esses dados observados tanto em hospitais gerais quanto em centros especializados2,5,10.

Os dados estao de acordo com os encontrados por Stein et al.5, que identificaram o perfil de pacientes queimados encontrados em seu estudo como indivíduos do gênero masculino (76,2%). Camuci et al.2 revelam percentual aproximado ao citado anteriormente, com domínio masculino de (74%). Já Marques et al.11 analisaram 79 prontuários de pacientes vítimas de queimaduras, e observaram que o sexo feminino foi o mais acometido (62% dos casos).

A idade é considerada um fator de extrema importância na avaliaçao da gravidade das queimaduras11,12. A idade média dos pacientes com queimaduras mistas foi de 39,7 anos e nos pacientes com queimaduras isoladas foi bastante similar (38,6; p=0,255).

Foram identificadas idades similares as encontradas neste estudo, no qual a idade média dos acidentados por queimaduras foi de 25,87 anos, Cruvinel et al. (apud Cruz et al.10) demonstraram média de 26,2 anos e Leao et al.13 analisaram o perfil epidemiológico de 687 pacientes internados, encontrando média de idade de 29 anos. Marques et al.11 relataram que a faixa etária mais acometida foi dos 19 aos 39 anos, seguida dos 40 aos 59 anos.

Comparando os resultados encontrados com os achados na literatura, afirma-se que a média de idade entre as populaçoes estudadas foi semelhante; em contrapartida, a amostra populacional e do tempo de estudo foi diversificada.

A análise do grau das queimaduras é considerada variável de aspecto importante na avaliaçao da gravidade da queimadura. Os pacientes considerados grandes queimados podem apresentar lesoes de primeiro, segundo terceiro e quarto graus14. Os graus de queimaduras que acometeram os pacientes do estudo foram de segundo e terceiro grau (mistas) e terceiro grau (isolada).

Em estudo realizado por Montes et al. (apud Cruz et al.10) identificaram que 43,5% dos pacientes apresentaram queimadura de 1º grau, 88,4% apresentaram queimaduras de 2º grau e 27,5% de 3º grau e em 58,7% dos indivíduos, verificaram-se lesoes de graus e profundidades distintas. Espindula et al.12 afirmam que lesoes de segundo grau predominaram entre os sujeitos de seu estudo, sendo que alguns apresentaram lesoes de primeiro e/ou terceiro grau associados.

Oliveira et al.15 referem que os profissionais da saúde classificam a gravidade das queimaduras de acordo com os seguintes critérios: as lesoes que atingem menos de 10% da SCQ sao consideradas leves; quando o comprometimento é entre 10% e 20%, denominase em médio queimado; o grande queimado é aquele que apresenta lesao superior a 20% da superfície corporal queimada. Segundo esses critérios de avaliaçao, constataram-se neste estudo que as queimaduras consideradas leves foram as de maior prevalência com 60%, seguidas das moderadas 30% e as grandes queimaduras afetaram 10% da populaçao estudada.

Conforme a classificaçao da American Burns Association (ABA), o paciente é considerado grande queimado nas seguintes situaçoes: quando apresenta mais de 25% da SCQ, mais de 20% da SCQ em crianças menores de 10 anos e em adultos com mais de 40 anos, mais de 10% da SCQ com lesoes de terceiro grau de profundidade e queimaduras envolvendo orelha, olhos, face, maos, pés e regiao perineal14.

As causas mais frequentes que levam as queimaduras citadas na literatura sao: chama de fogo, contato com líquidos em ebuliçao e objetos aquecidos10,11. Marques et al.11 verificaram que o agente térmico (chama de fogo) foi o maior causador de queimaduras (51,9%), escaldadura como a segunda mais prevalente, com 20,3%, seguida por explosao, com 17,7%. O contato com líquidos superaquecidos é apontado também como a maior causa de queimaduras segundo dados encontrados no estudo de Arrunátegui (apud Cruz et al.10), confirmando essa superioridade.

Em relaçao aos agentes causadores das queimaduras em nosso estudo, a chama direta (fogo) acometeu oito pacientes, seguida de cinco traumas elétricos, empatados com cinco agentes químicos e cinco por água aquecida, quatro atingidos por líquidos inflamáveis e três por óleo aquecido. Segundo a análise estatística, nao houve diferença significante que destacasse um grupo do outro em relaçao ao agente e o grau de queimadura (Tabela 1).

O estado nutricional de pacientes hospitalizados influi na evoluçao clínica; sendo assim, durante o estudo a composiçao corporal dos pacientes foi avaliada de acordo com o IMC, gerando como objetivo principal identificar os possíveis riscos nutricionais que esta populaçao poderia desenvolver durante todo o processo de cicatrizaçao, já que os mesmos se apresentam hipercatabólicos. A desnutriçao representa um fator de estresse adicional, aumentando o tempo de internaçao, reduzindo a imunidade, aumentando as incidências infecciosas e complicaçoes que acarretam risco de morte, além de retardar a cicatrizaçao de feridas14,16. Em nosso estudo, nenhum dos pacientes apresentava-se desnutrido no momento da admissao no serviço, permanecendo em estado nutricional adequado até a alta.

É de extrema importância que as necessidades nutricionais sejam atingidas, pois alteraçoes fisiológicas, imunológicas e hormonais podem acometer o organismo desses pacientes, sendo essas alteraçoes desenvolvidas em decorrência do quadro de hipermetabolismo com variável intensidade, dependendo da extensao e da profundidade da SCQ, do desenvolvimento de infecçoes e da efetividade dos tratamentos iniciais4-6.

A alimentaçao por via oral ainda é a melhor opçao para suprir as necessidades nutricionais. O aporte deve ser iniciado assim que se normalizar o peristaltismo intestinal, a dieta deve ser reforçada, rica em nitrogênio e hipercalórica, podendo ser suplementada nos intervalos com derivados do leite e em alguns casos nos primeiros dias as refeiçoes sao ofertadas em consistência mais líquidas, evoluindo conforme tolerância5. A aceitaçao da dieta também é fator importante de ser avaliado para que se contemplem as recomendaçoes nutricionais. Em nosso estudo, a aceitaçao apresentada pelos pacientes foi considerada adequada (Gráfico 1).

Os métodos mais utilizados para determinar as necessidades energéticas e proteicas em pacientes que sofreram queimaduras sao as equaçoes. É levada em conta a facilidade e o custo zero que as mesmas implicam, sendo inúmeras as fórmulas divulgadas na literatura para estimar as necessidades nutricionais (Harris-Benedict, Curreri, Cunningham, Toronto). A European Society for Clinical Nutrition and Metabolism (ESPEN) recomenda a calorimetria indireta como padrao ouro, seguida da fórmula de Toronto17.

Em média, foi fornecido para o grupo com queimaduras isoladas 1,5 g/kg/dia de proteína e para o grupo com queimaduras mistas a média foi de 1,3 g/kg/dia de proteína. Hall et al.18 afirmam que em adultos, dependendo da porcentagem queimada, o aporte proteico varia de 1,5 a 2,5 g/kg/dia, com o objetivo de manter o balanço nitrogenado positivo ou minimizar o déficit. Em queimaduras extensas os valores podem chegar até 4 g/k.g/dia19.

Rousseau et al.17 seguem quase que na mesma linha de raciocínio, recomendando que a oferta proteica varie de 1,5 a 2 g/kg/dia com melhor síntese proteica com valores até 1,5 g/kg/dia, valores acima de 2,2 nao causaram efeitos benéficos sobre a síntese e aporte de até 3 gramas em crianças nao foram vantajosos. Com base nestas pesquisas, evidenciando os valores proteicos muito parecidos aos identificados neste estudo, podemos afirmar que as necessidades proteicas dos pacientes foram contempladas.

Ao analisarmos o consumo proteico versus a necessidade calculada, foi apurado que a média de consumo foi de 31,1 g a mais de proteína do que preconizado para os pacientes com queimaduras mistas e 32,1 g em pacientes com queimaduras isoladas, o que representa valores muito parecidos, nao demonstrando consumo diferenciado entre os grupos.

O estado hipercatabólico e o fornecimento inadequado de glicose levarao o organismo a recorrer à degradaçao dos tecidos musculares e adiposos, tendo como consequência falha na cicatrizaçao5,10. O aporte proteico encontra-se aumentado em pacientes queimados, este aumento se dá devido ao intenso catabolismo, perda urinária, neoglicogênese e ao difícil processo de cicatrizaçao5,10,18,19. Sendo assim, por mais que os dois grupos apresentassem média de oferta e de consumo superior ao recomendado, nao se observou nenhuma contraindicaçao, sintomas ou sinais que demonstrassem prejuízos aos pacientes, já que o estado hipercatabólico permitia este consumo elevado.

Controvérsias ainda existem em relaçao à composiçao nutricional ideal a ser ofertada, mas fica claro que nesta situaçao a oferta energética e proteica deve ser aumentada, auxiliando no processo de cicatrizaçao, evitando a lipólise acentuada, o catabolismo proteico intenso e o processo de desnutriçao7,17,18. Ao compararmos o aporte proteico e calórico ofertado e a recomendaçao calculada individualmente, observou-se que em todos os quatro momentos da internaçao o ofertado estava acima do que foi estipulado como média de necessidade nutricional (Tabela 2 e Gráfico 3).

Foi possível notar que o consumo em relaçao à necessidade calculada individualmente mostrou uma média diferenciada em alguns momentos. Na maior parte das vezes, observou-se que a média de consumo foi para mais após a primeira semana de internaçao.

O ambiente hospitalar pode influenciar de forma negativa na aceitaçao da dieta, há uma série de fatores que influenciam a ingestao alimentar, o quadro clínico do paciente, as restriçoes alimentares geradas, o ambiente hospitalar, o tempo de internaçao e a reincidência no serviço20. É importante que o consumo alimentar seja investigado, averiguando os grupos alimentares que fazem parte da pirâmide alimentar brasileira.

Os pacientes do nosso estudo encontravam-se em desacordo com a recomendaçao de alguns grupos alimentares (Gráfico 3). Ao observar o consumo dos alimentos do grupo dos carboidratos, percebe-se um consumo pela maioria dos participantes do estudo. O açúcar refinado e os alimentos ultraprocessados devem ser evitados e seu consumo desestimulado; os doces, preparados com alto teor de açúcar refinado, devem ser substituídos por frutas e doces à base das mesmas para que a alimentaçao nao se torne nutricionalmente desbalanceada9.

A água é fundamental para o equilíbrio, hidrataçao do corpo e manutençao da vida; a quantidade de água que precisamos ingerir por dia é muito variável e depende de vários fatores, o mínimo a ser ingerido é de dois litros (seis a oito copos) diariamente. Esta quantidade pode variar conforme as atividades desenvolvidas, a temperatura corporal, do ambiente e restriçoes específicas9.

Stein et al.5 referem que a alimentaçao de pacientes grandes queimados exclusivamente por via oral é um desafio e apresenta falhas devido ao estado mental alterado, lesoes por inalaçao, funçao pulmonar comprometida, disfunçao gastrointestinal, e ou alimentaçao intolerante, mas ressalta-se que a via oral associada a outras terapias nutricionais pode ser efetiva.

Como possíveis limitaçoes deste estudo, podemos referir o fato da amostra ter sido pequena e assim nao conseguirmos evidenciar diferenças estatísticas significantes. E como potencialidades, todos os pacientes avaliados estavam em uso de dieta oral e foram acompanhados e avaliados quanto a sua ingestao alimentar da internaçao à alta, servindo como parâmetro para garantia de adequaçao nutricional.


CONCLUSAO

O perfil alimentar dos pacientes estudados mostrou-se adequado, atingindo suas necessidades proteicas e calóricas em sua totalidade. Os consumos dos grupos alimentares estiveram relativamente contemplados (carboidratos, proteínas, frutas e leguminosas), em contrapartida quando foram analisados o consumo de legumes, verduras e água, mostraram-se baixos. O consumo alimentar adequado que contemple macronutrientes, vitaminas e minerais é de relevância no processo de cicatrizaçao e deve ser acompanhado pelo serviço de nutriçao.


REFERENCIAS

1. Cunha LVT, Cruz Júnior FJA, Santiago DO. Atendimento inicial aos pacientes queimados: avaliaçao do conhecimento de alunos do internato do curso de Medicina. Rev Bras Queimaduras. 2016;15(2):80-6.

2. Camuci MB, Martins JT, Cardeli AAM, Robazzi MLCC. Caracterizaçao epidemiológica de pacientes adultos internados em uma unidade de terapia intensiva de queimados. Cogitare Enferm. 2014;19(1):78-83.

3. Braga MS, Pantoja LD, Scerni FM, Vasconcelos FC. Análise do consumo alimentar e das alteraçoes bioquímicas de pacientes queimados em hospital de referência. Rev Bras Queimaduras. 2015;14(2):125-32.

4. Chen QH, Yang XK, Hu DH. Advances in the research of nutrition therapy in patients with severe burn. Zhonghua Shao Shang Za Zhi. 2016;32(10):628-31.

5. Stein MHS, BettinellI RD, Vieira BM. Terapia nutricional em pacientes grandes queimados - uma revisao bibliográfica. Rev Bras Queimaduras. 2013;12(4):235-44.

6. Ostadrahimi A, Nagili B, Asghari-Jafarabadi M, Beigzali S, Zalouli H, Lak S. A Proper Enteral Nutrition Support Improves Sequential Organ Failure Score and Decreases Length of Stay in Hospital in Burned Patients. Iran Red Crescent Med J. 2016;18(2):e21775.

7. Serra MCVF, Sacramento AL, Costa LM, Ramos PB, Guimaraes Junior LM. Terapia nutricional no paciente queimado. Rev Bras Queimaduras. 2011;10(3):93-5.

8. Pennisi VM. Monitoring the nutritional care of burned patients. J Am Diet Assoc. 1976;69(5):531-3.

9. Philippi ST. Redesenho da Pirâmide Alimentar Brasileira para uma alimentaçao saudável. Sao Paulo; 2013. [acesso 2017 Maio 17]. Disponível em: http://www.piramidealimentar. inf.br/pdf/ESTUDO_CIENTIFICO_PIRAMIDE_pt.pdf

10. Cruz BF, Cordovil PBL, Batista KNM. Perfil epidemiológico de pacientes que sofreram queimaduras no Brasil: revisao de literatura. Rev Bras Queimaduras. 2012;11(4):246-50.

11. Marques MD, Amaral V, Marcadenti A. Perfil epidemiológico dos pacientes grandes queimados admitidos em um hospital de trauma. Rev Bras Queimaduras. 2014;13(4):232-5.

12. Espindula AP, Rocha LSM, Alves MO. Perfil de pacientes queimados do Hospital de Clínicas: uma proposta de intervençao com escolares. Rev Bras Queimaduras. 2013;12(1):16-21.

13. Leao CEG, Andrade ES, Fabrini DS, Oliveira RA, Machado GLB, Gontijo LC. Epidemiologia das queimaduras no estado de Minas Gerais. Rev Bras Cir Plást. 2011;26(4):573-7.

14. Oliveira AMRR. Grande Queimado. In: Toledo D, Castro M. Terapia nutricional em UTI. 1a ed. Rio de Janeiro: Rubio; 2015. p. 333-8.

15. Oliveira TS, Moreira KFA, Gonçalves TA. Assistência de enfermagem com pacientes queimados. Rev Bras Queimaduras. 2012;11(1):31-7.

16. Teixeira VP, Miranda RC, Baptista DR. Desnutriçao na admissao, permanência hospitalar e mortalidade de pacientes internados em um hospital terciário. Demetra. 2016;11(1):239-51.

17. Rousseau AF, Losser MR, Ichai C, Berger MM. ESPEN endorsed recommendations: nutritional therapy in major burns. Clin Nutr. 2013;32(4):497-502.

18. Hall KL, Shahrokhi S, Jeschke MG. Enteral nutrition support in burn care: a review of current recommendations as instituted in the Ross Tilley Burn Centre. Nutrients. 2012;4(11):1554-65.

19. Silva APA, Freitas BJ, Oliveira FLC, Piovacari SMF, Nóbrega FJ. Terapia nutricional em queimaduras: uma revisao. Rev Bras Queimaduras. 2012;11(3):135-41.

20. Silva SM, Maurício AA. Gastronomia hospitalar: um novo recurso para melhorar a aceitaçao de dietas. ConScientiae Saúde. 2013;12(1):17-27.









Recebido em 21 de Fevereiro de 2017.
Aceito em 15 de Maio de 2017.

Local de realização do trabalho: Programa de Residência Multiprofissional em Urgência e Emergência da Universidade Santo Amaro, São Paulo, SP, Brasil.


© 2021 Todos os Direitos Reservados