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Qualidade de vida de crianças e adolescentes após queimadura: Revisão integrativa

Quality of life of children and adolescents after burning: An integrative review

Priscila Juceli Romanoski1; Camila Simas2; Daiana Ferreira Marcelino Daniel3; Rebeca Sartini Coimbra4; Pollyana Thays Lameira da Costa5; Maria Elena Echevarría-Guanilo6

RESUMO

OBJETIVO: Identificar a produção do conhecimento sobre qualidade de vida e aspectos relacionados a partir da percepção de crianças e adolescentes queimados.
MÉTODO: Revisão integrativa da literatura nas bases de dados Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde e National Library of Medicine National Institutes of Health, utilizando descritores em português, inglês e espanhol: Qualidade de Vida; Queimaduras; Criança; Adolescente; Reabilitação; Estilo de Vida; Valor da Vida; Terapia Ocupacional; Atividade Motora; Unidades de Queimados; Emoções; Autoimagem; Imagem Corporal; Autonomia Pessoal; Bullying; e Apoio Social; e palavras-chave: Atividade física; Queimados; Sentimentos; e Autopercepção. Foi realizada busca direta na Revista Brasileira de Queimaduras, em junho de 2017, tendo sido selecionados 620 artigos publicados entre 2011 e 2017. Desses, apenas 11 foram incluídos.
RESULTADOS: Duas temáticas foram levantadas: 1) qualidade de vida de crianças e adolescentes que sofreram queimaduras ou aspectos associados (idade, superfície corporal queimada, local do corpo atingido, tempo transcorrido da queimadura, ambiente de atendimento, relação familiar e uso de estratégias de camuflagem da cicatriz); 2) Instrumentos de medida, sendo os mais utilizados: The Paediatric Quality of Life Inventory e Burn Outcomes Questionnaire.
CONCLUSÕES: Pesquisas que avaliam a Qualidade de Vida a partir da concepção de crianças e adolescentes precisam ser garantidas em consonância com os determinantes sociais que influenciam a saúde e a qualidade de vida após a alta hospitalar. Além disso, destaca-se a importância dos avanços em estudos de validação de instrumentos para consolidar práticas e oportunizar o cuidado efetivo.

Palavras-chave: Qualidade de Vida. Queimaduras. Criança. Adolescente. Literatura de Revisão como Assunto.

ABSTRACT

OBJECTIVE: To identify the production of knowledge regarding the quality of life and related aspects from the perception of burned children and adolescents.
METHODS: Integrative literature review. The Latin American and Caribbean Literature in Health Sciences and National Library of Medicine National Institutes of Health databases were consulted using the following descriptors in the Portuguese, English and Spanish languages: Quality of Life; Burns; Child; Adolescent; Rehabilitation; Lifestyle; Value of Life; Occupational therapy; Motor Activity; Burned Units; Emotions; Self-image; Body image; Personal Autonomy; Bullying; and Social Support; and the keywords: Physical activity; Burned; Feelings; and Self-perception. A direct search was conducted at the Brazilian Journal of Burns in June 2017, having been selected 620 articles published between 2011 and 2017. Only 11 were included.
RESULTS: Two themes emerged: 1) quality of life of children and adolescents who suffered burns or associated aspects (age, burned body surface, body location reached, burn time, care environment, family relationship and use of scar camouflage strategies); 2) Measurement instruments, the most used being: The Pediatric Quality of Life Inventory and Burn Outcomes Questionnaire.
CONCLUSIONS: Research that evaluates Quality of Life from the conception of children and adolescents needs to be guaranteed in line with the social determinants that influence health and quality of life after hospital discharge. In addition, the importance of advances in validation studies of instruments to consolidate practices and to provide effective care is highlighted.

Keywords: Quality of Life. Burns. Child. Adolescent. Review Literature as Topic.

INTRODUÇÃO

As queimaduras na infância e adolescência compreendem importante causa de hospitalização prolongada e, quando não levam à morte, dependendo da gravidade e do nível de comprometimento, podem ocasionar sequelas graves e significativas limitações funcionais, psicológicas e de ordem social, afetando diretamente a qualidade de vida (QV)1 do indivíduo que sofreu queimadura.

Crianças de zero a quatro anos de idade formam o grupo de risco para trauma com queimaduras2. No Brasil, estima-se que anualmente ocorram um milhão de acidentes com queimadura, correspondendo a aproximadamente 300 mil casos em crianças e adolescentes, sendo 70% em crianças e com prevalência em menores de dois anos de idade, caracterizando a quarta maior causa de morte nessa faixa etária3. Esse tipo de acidente envolvendo crianças acontece predominantemente no cenário doméstico, principalmente na cozinha, sendo diretamente ligado ao escaldamento por líquidos ferventes. Já em adolescentes, os acidentes costumam decorrer da combustão de inflamáveis de uso doméstico4.

Países de baixa e média renda correspondem ao maior risco de queimaduras em relação a países de alta renda, possuindo uma taxa de mortalidade decorrente desses acidentes sete vezes maior que em países de alta renda, o que relaciona a ocorrência de queimadura com o nível socioeconômico da população afetada1. A maioria das queimaduras podem gerar impactos duradouros na qualidade da vida das pessoas, sobretudo relacionados a cicatrizes, contraturas, fraqueza, termorregulação, prurido, dor, alteração do sono, percepção da imagem corporal e bem-estar psicossocial. O tratamento de terapia intensiva também pode causar alterações cognitivas, afetivas ou comportamentais, além das consequências diretas da lesão5.

A grande ocorrência desses acidentes com crianças e adolescentes e, principalmente, as sequelas causadas por queimaduras têm despertado em diversos países ações visando à prevenção. No entanto, pouco se tem explorado sobre a qualidade de vida e os aspectos relacionados a partir da percepção dessas vítimas.

Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), o conceito de qualidade de vida abrange as seguintes dimensões: saúde física, saúde psicológica, nível de independência, relações sociais e o meio ambiente. Assim, faz-se indispensável ao indivíduo uma intervenção integral, multidisciplinar e interdisciplinar que envolva os diversos aspectos afetados, os quais se relacionam com o papel social, incluindo a retomada ao trabalho, a capacidade funcional, a imagem corporal, o lazer e as relações interpessoais6.

Procurando contribuir e somar esforços para o cuidado da população infantojuvenil, propôs-se a presente investigação com o objetivo de identificar a produção do conhecimento sobre qualidade de vida e aspectos relacionados a partir da percepção de crianças e adolescentes que sofreram queimaduras.


MÉTODO

Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, a qual proporciona a síntese de conhecimento e a incorporação da aplicabilidade de resultados de estudos significativos na prática7. Os passos metodológicos contemplam: elaboração da pergunta norteadora, busca ou amostragem na literatura, coleta de dados, análise crítica dos estudos incluídos, discussão dos resultados e apresentação da revisão integrativa7.

A questão norteadora elaborada foi: "Qual a produção do conhecimento sobre qualidade de vida e aspectos relacionados a partir da percepção de crianças e adolescentes queimados nos últimos cinco anos em literatura nacional e internacional?".

Foram selecionados os descritores em Ciências da Saúde (DECs)/Medical Subject Headings (MESH): Qualidade de Vida, Queimaduras, Criança, Adolescente, Reabilitação, Estilo de Vida, Valor da Vida, Terapia Ocupacional, Atividade Motora, Unidades de Queimados, Emoções, Autoimagem, Imagem Corporal, Autonomia Pessoal, Bullying e Apoio Social; e as palavras-chave utilizadas foram: Atividade física, Queimados, Sentimentos e Autopercepção. Foi utilizado um número maior de descritores e palavras-chave devido à pouca produção científica encontrada sobre a qualidade de vida na percepção de crianças e adolescentes queimados.

Em seguida, ocorreu a busca nas seguintes bases de dados: Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e National Library of Medicine National Institutes of Health (PUBMED) utilizando todos os termos em português, inglês e espanhol com operadores boleanos AND e OR. Foi incluída a Revista Brasileira de Queimaduras, revista nacional e de referência latino-americana na temática, visto que se encontra indexada na base de dados LILACS; porém, o total de artigos publicados ainda não se encontra disponível para consulta on-line, o que justifica a inclusão desse periódico à parte.

A estratégia de busca utilizada nas bases supracitadas foi: tw:(("Qualidade de vida" OR "Estilo de vida" OR "Valor da vida" OR "Calidad de vida" OR "Estilo de Vida" OR "Valor de la Vida" OR "Quality of life" OR "Life Style" OR "Value of Life") AND ("Terapia ocupacional" OR reabilitação OR "Atividade motora" OR "Atividade física" OR rehabilitación OR "Actividad Motora" OR "Actividad Física" OR "Occupational Therapy" OR Rehabilitation OR "Motor Activity" OR "Physical Activity") AND (Queimaduras OR "Unidades de Queimados" OR Queimados OR Quemaduras OR "Unidades de Quemados" OR Quemados OR Burns OR "Burn Units" OR Burned) AND (Sentimentos OR Emoções OR "Auto imagem" OR "Imagem Corporal" OR "Autopercepção" OR "Autonomia Pessoal" OR Bullying OR Sentimientos OR Emociones OR "Auto imagen" OR "Imagen Corporal" OR "Autonomía Personal" OR "Acoso Escolar" OR Feelings OR Emotions OR "Self Concept" OR "Body Image") AND ("Apoio social" OR "Apoyo social" OR "Personal Autonomy" OR "Social Support") AND (Criança OR Adolescente OR Niño OR Child OR Teenager)).

Para inclusão dos estudos, foram considerados os seguintes critérios: pesquisas com humanos, no período de 2011 a 2017, desenvolvidas com crianças e adolescentes queimados que avaliaram sua qualidade de vida e os aspectos a ela relacionados. A busca foi realizada no mês de junho de 2017, tendo sido identificados 620 artigos, os quais foram exportados para o software Endnote Web. Foram excluídos cinco estudos duplicados, totalizando 615 artigos.No processo de seleção, a partir da leitura dos títulos e resumos, excluíram-se 590 artigos que não responderam ao objetivo deste estudo, restando 25 artigos.

Os artigos excluídos foram identificados em planilha Excel® 2010 e classificados pelo motivo de exclusão, sendo, respectivamente, genotipagem, epidemiologia e farmacologia os assuntos mais abordados. No processo de elegibilidade, ocorreu a leitura completa dos 25 artigos. Destes, foram selecionados 11 que contemplam o propósito deste estudo. Os artigos foram identificados com a letra "E" e respectivo número: E(1); E(2); E(3); e assim consecutivamente.

Nesta etapa, também foram registrados em planilha Excel® 2010 os artigos excluídos na última etapa, em que os principais motivos de exclusão foram a não avaliação da qualidade de vida e a não estratificação dos resultados ao avaliar a qualidade de vida de crianças e adultos, o que impossibilitava a análise da amostra de crianças e adolescentes separadamente. Durante todo o processo, houve reuniões de debate entre o grupo de pesquisadores para analisar cada artigo incluído.

A seguir, apresenta-se o fluxograma do processo de seleção dos artigos com base no fluxo de informações proposto pelo PRISMA Group8 (Figura 1).


Figura 1 - Fluxograma do processo de seleção dos artigos. Florianópolis, 20181.
1Fluoxograma com base no modelo PRISMA Group.



Após o processo de seleção dos artigos incluídos, iniciou-se a coleta dos dados de acordo com instrumento próprio para esse estudo, também elaborado em planilha do Excel® 2010, contendo os seguintes dados: referência completa da produção, base de dados, palavras-chave/descritores utilizados, país da pesquisa, categoria profissional dos autores, instituição sede da pesquisa, método de pesquisa, instrumento de coleta de dados, idade dos participantes, objetivos e principais resultados.

A análise crítica dos estudos e a discussão dos resultados ocorreram de maneira sistematizada, em reuniões de debates com todos
os autores deixando clara a lacuna do conhecimento e a necessidade de desenvolvimento de estudos que foquem na percepção de crianças e adolescentes sobre QV.

Como esta pesquisa não envolveu seres humanos e analisou dados disponíveis publicamente, não houve necessidade de aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa.


RESULTADOS

A seguir, os resultados serão apresentados contemplando duas temáticas: 1) identificação da produção do conhecimento sobre qualidade de vida e aspectos relacionados a partir da percepção de crianças e adolescentes que sofreram queimaduras; e 2) instrumentos identificados para avaliação da qualidade de vida e aspectos relaForam incluídos 11 artigos que contemplam a produção do conhecimento, todos de abordagem quantitativa, publicados em periódicos internacionais e, em sua maioria, em periódico específico na temática queimadura (Burns, n=7) (Quadros 1 e 2). No Brasil, não foi encontrado nenhum estudo publicado nos últimos cinco anos referente à percepção de crianças e adolescentes sobre qualidade de vida após queimadura.






A seguir, dois quadros demonstram os resultados apresentados nos artigos lidos na íntegra e incluídos neste estudo (Quadros 1 e 2).

Apenas dois estudos (E5/E10) não são compatíveis com o propósito deste estudo, considerando que é possível identificar nos demais artigos o explícito interesse em estudar QV. Quanto à idade, há sete estudos foram com crianças e adolescentes (E3/E4/E5/E6/E7/E8 e E10), três (E1/E2/E11) somente com crianças e apenas um com adolescentes (E9) (Quadro 3).




A seguir é apresentado um quadro com aspectos interferem na avaliação de QV (Quadro 3).

As temáticas estudadas estão direta ou indiretamente relacionadas à qualidade de vida, tais como: idade, superfície corporal queimada (SCQ), local do corpo atingido, tempo transcorrido da queimadura e ambiente de tratamento (Quadro 3).

Em relação à idade, identificou-se nos estudos que crianças menores avaliam a QV de forma mais positiva e melhor quando comparadas com adultos (E3/E6) e que crianças em idade pré-escolar apresentam pior QV quando comparadas com crianças em idade escolar devido ao medo e à ansiedade no tratamento das cicatrizes e no uso de curativos compressivos (E1). Quanto maior o comprometimento da SCQ, mais comprometedoras são as avaliações de QV (E3).

Além disso, com SCQ acima de 10%, as crianças apresentam comprometimento em relação à funcionalidade, à aparência, à satisfação com estado atual e à preocupação com os pais, quando comparadas a crianças com SCQ menor que 10% (E10). No caso do local do corpo atingido, o tronco foi o mais comprometedor em relação à QV de crianças (E6). Em relação ao tempo transcorrido, evidenciou-se que em longo prazo a QV de crianças é mais positiva quando comparada a de adultos (E2). Também se constatou que o ambiente ambulatorial favorece a fala, a respiração e as amizades (E2).

De maneira indireta, os adolescentes avaliam de forma mais positiva aspectos psicossociais em comparação aos pais (E7). E, na percepção dos pais, os filhos possuem uma boa QV quando estes se sentem melhor quanto à sua aparência física (E5). Percebeu-se, ainda, uma relação familiar positiva favorece a avaliação de QV (E3).

Um achado de destaque e muito positivo na QV é o uso de maquiagem como estratégia de camuflagem de cicatrizes, o que favorece os aspectos de aparência e autoaceitação (E5). Outros aspectos, como agente etiológico (E2) e lesões por inalação (E9), não foram identificados como questões que interferem na avaliação da QV de crianças e adolescentes que sofreram queimaduras.

Em relação aos instrumentos identificados para avaliar QV ou aspectos associados em crianças e adolescentes que sofreram queimaduras, destaca-se que foram diversos, específicos e genéricos. Portanto, esse fator deve ser considerado na forma de medida, isto é, se o questionário apresenta construto genérico (aplicado em qualquer situação ou condição de saúde) ou específico (aplicado em condições específicas de saúde ou população) (Quadro 4).




O quadro a seguir apresenta os resultados dos instrumentos utilizados e aspectos relacionados (Quadro 4).

Todos os artigos apresentaram abordagem quantitativa e os instrumentos de medida utilizados para avaliar a qualidade de

vida foram os seguintes: dois artigos - The Paediatric Quality of Life Inventory (PedsQL); um artigo - 17 - D Questionnaire; um artigo - Quality of Life and Management of Living Resources (KIDSCREEN-27); um artigo - Child Health Questionnaire (CHQ); e um artigo - EuroQoL-5D.

Os demais instrumentos foram empregados para avaliar aspectos relacionados à QV, como ansiedade, tolerância à terapia utilizada, autoconceito, psicopatologia, inserção social, incapacidade e fatores clínicos e socioeconômicos.


DISCUSSÃO

O processo de reabilitação de pacientes queimados é complexo, principalmente quando esse trauma acomete crianças e adolescentes, afetando diretamente sua qualidade de vida6. A discussão desse estudo permeia as duas temáticas encontradas: a percepção dessas pessoas sobre a qualidade de vida e os instrumentos de medida utilizados para avaliá-la.

Acerca da percepção de crianças e adolescentes sobre qualidade de vida após queimaduras, considera-se que uma "boa" qualidade de vida pelos pacientes está associada à ideia de "normalidade", ou seja, quando o indivíduo consegue continuar realizando seu papel social dentro da família e da sociedade20. Assim, indivíduos que não estão satisfeitos quanto à capacidade funcional, imagem corporal, retorno ao trabalho, desempenho nas atividades de lazer e relações interpessoais podem perceber negativamente sua qualidade de vida.

Em outro estudo, cujo objetivo foi interpretar os significados de qualidade de vida atribuídos por pessoas que sofreram queimaduras graves, percebeu-se que as modificações da qualidade de vida são decorrentes de limitações físicas e psíquicas provocadas pela queimadura. Além disso, a qualidade de vida associa-se ao desempenho de papéis sociais e estrutura-se em torno dos seguintes núcleos: família, trabalho, autonomia, normalidade e integração social21.

A infância e a adolescência são períodos muito importantes para o desenvolvimento, pois é quando as pessoas adquirem muitas habilidades em diversos domínios, como social, motor e funções cognitivas. Acidentes envolvendo queimaduras são eventos estressantes que podem gerar consequências que persistirão da infância até a idade adulta, implicando o declínio das aptidões físicas e incapacidades funcionais, visto que geralmente tais eventos são seguidos de um extenso período de desordens psicológicas, dor, uso de medicação, restrição ao leito e cirurgias, além do processo de cicatrização que pode envolver prurido, contraturas e alteração da aparência corporal2.

Após a queimadura, a qualidade de vida pode ser entendida como estado de saúde referente à capacidade de reação e adaptação do indivíduo às transformações que ocorrem após o trauma quanto aos aspectos individuais (autopercepção), familiares e sociais (percepção dos outros). Após o trauma, os indivíduos começam a reconhecer os aspectos importantes que interferem na idealização do conceito de qualidade de vida, que se formam pelas necessidades, características individuais e experiências de vida6.

Os instrumentos de medidas são considerados tecnologias em saúde que, em sua maioria, são de fácil aplicação e leitura dos resultados, bem como de baixo custo para os sistemas de saúde. Neste estudo, foi possível avaliar e trazer alguns instrumentos que foram utilizados na avaliação da qualidade de vida e qualidade vida relacionada à saúde.

Por isso, instrumentos de medida válidos e confiáveis devem ser utilizados para avaliar questões de saúde e doença. Essas medidas são amplamente definidas para instruir os planejadores na área de saúde quanto às técnicas usadas para ações preventivas e curativas em curto, médio e longo prazo7.

Atualmente, existem sete instrumentos validados transculturalmente no Brasil. Destes, três foram validados para crianças e adolescentes: O PedsQL, validado em 2008 crianças após trauma22, é uma escala que mensura a QVRS em crianças e adolescentes com idade entre 2 e 18 anos. Composto por 23 itens, abrangendo quatro dimensões de funcionamento: físico, emocional, social e escolar. A pontuação é realizada através de uma escala Likert de "1" a "5" pontos12,19.

O KIDSCREEN - 27, versão reduzida do KIDSCREEN- 52, foi validado em crianças em 20I823 e em adolescentes em 20I724. Trata-se de um instrumento que mensura a QV de crianças e adolescentes entre 6 e 18 anos de idade, através de 27 questões divididas em cinco dimensões: bem-estar físico, bem-estar psicológico, relacionamento com familiares e autonomia, suporte social e meio ambiente na escola. A avaliação ocorre por meio da escala tipo Likert de "1"a "5"pontos11.

O SDQ foi validado em 200025. Questionário que rastreia problemas de saúde mental infantil, através de 25 itens divididos em cinco subescalas: problemas no comportamento pró-social, hiperatividade, problemas emocionais, de conduta e de relacionamento, com cinco itens em cada subescala. As respostas podem ser: falso, mais ou menos verdadeiro ou verdadeiro, em que cada item recebe uma pontuação específica.

A soma de cada escala e a soma total permite a classificação da criança em três categorias: desenvolvimento normal (DN), limítrofe (DL) ou anormal (DA). Na subescala comportamento pró-social, quanto maior a pontuação, menor é a quantidade de queixas. Nas outras subescalas (hiperatividade, problemas emocionais, de conduta e de relacionamento), quanto maior a pontuação, maior o número de queixas.

Ainda, o CHQ foi validado somente para crianças em 200126, instrumento que mede QVRS de crianças e adolescentes com idade entre 5 e 18 anos em diferentes condições de saúde. Avalia as dimensões físicas e psicossociais da saúde por meio de escala Likert. Abrange dez domínios, concentrados em dois índices: escore físico e psicossocial. Outros domínios são: avaliação global da saúde, avaliação global do comportamento, mudança no estado de saúde, atividade familiar e coesão familiar16.

Em relação aos adultos, no momento existem três instrumentos validados transculturalmente no Brasil, sendo eles: IES, validado em 201227, e WHODAS II, validado em 201328. Ainda, há o instrumento BSHS-B, que foi validado em 2015, sendo este o instrumento mais utilizado mundialmente para avaliar a qualidade de vida após a queimadura, por ser o único específico para essa temática29.

Os demais questionários utilizados são genéricos, ou seja, são multidimensionais e foram desenvolvidos com o objetivo de avaliar o impacto causado por uma doença, incluindo capacidade funcional, aspectos físicos, dor, estado geral de saúde, vitalidade, aspectos sociais, aspectos emocionais e saúde mental.

As escalas genéricas também podem ser utilizadas para avaliar a eficácia de políticas e programas de saúde ou para comparar duas enfermidades distintas. Não possuem ênfase sobre os sintomas, incapacidades ou limitações relacionadas a uma doença, função mais atribuída aos instrumentos específicos, os quais possuem a vantagem de analisar mais detalhadamente as alterações e aspectos da QV em determinadas situações30.

Medir a qualidade de vida das crianças e adolescentes após queimaduras na pesquisa quantitativa ou qualitativa exige do profissional grande habilidade para lidar com o desenvolvimento humano e o período de reabilitação. Dessa forma, a capacidade que o profissional tem de se comunicar efetivamente auxilia a criança a ter autonomia no cuidado e aos pais, que são fundamentais no tratamento de um paciente crônico21.

De maneira geral, as pesquisas quantitativas sobre qualidade de vida refletem a natureza multidisciplinar do enfoque do ser humano em seus domínios e focalizam o estado emocional, de saúde, a interação social, o status econômico e a capacidade física, mas não capturam sua subjetividade, sendo de extrema relevância compreender e interpretar suas motivações, seus valores, suas crenças e o que direciona o foco à dimensão cultural20. Assim, pesquisas sobre a compreensão e interpretação do significado de qualidade de vida complementam os achados desse estudo, que obteve resultados de pesquisas quantitativas.

As limitações metodológicas deste estudo estão relacionadas ao limite de tempo na busca dos estudos dos últimos cinco anos - o qual se justifica pelo interesse em publicações recentes sobre o assunto -, a não avaliação do risco de viés dos estudos incluídos e à pequena amostragem - apesar de QV ser assunto amplamente estudado, evidenciaram-se poucos estudos focados na percepção de crianças e adolescentes que sofreram queimaduras.


CONCLUSÃO

Foram identificados 11 estudos que representam a produção do conhecimento sobre qualidade de vida e aspectos relacionados a partir da percepção de crianças e adolescentes que sofreram queimaduras. Esses estudos reforçam que a temática QV é um conceito complexo e amplo e que a percepção das crianças e adolescentes sobre sua condição de saúde deve ser considerada no processo saúde/doença. Os achados estão relacionados à idade, pois crianças menores apresentam melhor QV quando relacionadas com adultos que sofreram queimaduras.

A abrangência da SCQ com maior comprometimento e queimadura em tronco prejudica a QV de crianças e adolescentes. O longo tempo em ambiente ambulatorial favorece a QV de crianças e adolescentes. Outros aspectos, não menos importantes, relacionados ao avaliador, à família e às estratégias de camuflagem das cicatrizes, despertam a atenção pela influência social no cuidado de maneira ampla e envolvem a pessoa, a família e a comunidade.

Avanços em validação de instrumentos para uso no Brasil se fazem necessários a fim de oportunizar um cuidado efetivo, o que pode ser alcançado por meio de implantação de protocolos que contribuam para uma prática segura e tecnológica. Ressalta-se que pesquisas que avaliem a QV a partir da percepção das crianças e adolescentes precisam ser desenvolvidas junto aos determinantes sociais que influenciam a saúde e a qualidade de vida desses pacientes após alta hospitalar.


PRINCIPAIS CONTRIBUIÇÕES

Identificação dos aspectos relacionados e que influenciam na qualidade de vida na perspectiva das crianças e adolescentes que sofreram queimaduras.

Identificação dos instrumentos de medida que avaliam a qualidade de vida e podem ser utilizados pelos profissionais da saúde.


AGRADECIMENTO

Este trabalho recebeu apoio através da contemplação de bolsas de estudos pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior/Pró-Reitoria de Extensão, Cultura e Comunidade (CAPES/PROEX) e pelo Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC), vinculada ao Conselho Nacional de Pesquisas (CNPQ). Todas vinculadas ao Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina (PEN/UFSC). Assim, dedicamos nossos sinceros agradecimentos a esses órgãos que contribuem com a pesquisa.


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Recebido em 19 de Agosto de 2018.
Aceito em 17 de Maio de 2019.

Local de realização do trabalho: Universidade Federal de Santa Catarina, Santa Catarina, SC, Brasil.

Conflito de interesses: Os autores declaram não haver.


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